terça-feira, 4 de março de 2014

BRINCAR: VALORIZAÇÃO AO DIREITO (Brinquedoteca: espaço para um brincar real)

Por Oziane da Silva Cavalcante

INTRODUÇÃO

                             Neste trabalho estão presentes algumas reflexões apreendidas no decorrer do 4º semestre da Graduação em Pedagogia, que aborda como temática central o direito ao brincar fundamentado pelos benefícios da brinquedoteca a criança.
                            Em todas as culturas e momentos históricos as crianças brincam, pois brincar é sua linguagem natural. Precisamente, sobre esta linguagem juntamente com suas contribuições para o desenvolvimento físico, psíquico e emocional das crianças, que muitos teóricos se debruçaram, tais como Conti e Sperb, Friedmann, Vygotsky, Cunha, Schlee, Kishimoto  e tantos outros. Assim, por meios de suas pesquisas e analises a criança é vista como sujeito ativo e construtor de sua cultura lúdica.

                            Neste sentido, inegavelmente as atividades realizadas na brinquedoteca proporcionam momentos de lazer, fantasia, imaginação e criatividade favorecendo a produção de conhecimento infantil. Portanto, compete à sociedade em geral garantir o direito de brincar das crianças, neste viés a brinquedoteca torna-se um espaço que valoriza as ideias no plano simbólico das crianças para que as mesmas compreendam o significado real no contexto social.

BRINCAR: VALORIZAÇÃO AO DIREITO

                           Quem nunca brincou, mergulhado em um mundo encantado e mágico? Pode-se afirmar que a brincadeira é um dos traços inerente do ser humano, em especial as crianças. A vida lúdica infantil na sociedade contemporânea esta alicerçada sob uma concepção de infância construída a partir dos mecanismos da globalização e fundada nos aportes tecnológicos. No entanto, esta consciência social surgiu com o Renascimento e ao longo dos anos os estudos em torno da Pediatria, Psicologia e Pedagogia, balizaram o brincar infantil. Assim, percebe-se que as formas de brincar, seus espaços e tempos foram se modificando de acordo a sociedade vigente, Brougère aponta que as concepções do brincar são construções que estão atreladas às representações de criança de cada época.
                         Através desta afirmativa deslumbram-se as visões que os adultos tinham a respeito da criança e de suas brincadeiras. No período medieval as crianças eram concebidas como adultos em miniaturas e que brincar era perda de tempo, visto que os mesmos deveriam o mais cedo possível comportasse de acordo as convenções sociais do período, por este motivo os indicativos lúdicos consistiam em brinquedos rústicos, fabricados pelos pais ou pela própria criança. A significação atribuída ao brincar, surge com as modificações sofridas pelo vocábulo latino vinculum, cuja gênese é laço, vínculo, o mesmo passou por vinclu, vincru até chegar a vrinco e, por fim, brinco, este último reporta a mitologia grega onde brincos, pequenos deuses que voavam em tono de Venus tinham a função de adornar, seguindo após a obrigatoriedade, concedendo à prática do brincar um exercício realizado depois das obrigações.
                           Na idade moderna, com estudos de vários teóricos, a infância e suas especificidades são analisadas sob novas e diferentes óticas, neste período, o brincar e seus papel no desenvolvimento são focado. Friedmann considera a brincadeira como um sistema integrador da vida social da criança, sendo transmitida de geração a geração, mudando o conteúdo, mas não o formato. Deste modo, o conjunto dos fatores biológicos, psicológicos e as interações sociais constitui a base para a construção de uma cultura lúdica individual e também geral durante a infância, tendo em vista que lúdico, a brincadeira é uma atividade que resulta de uma situação imaginário-lúdica. Lima (1994, 1995, apud PETERS, 2009), defende que por meio da brincadeira a criança constrói conhecimentos sobre a realidade em que está inserida. Nesta perspectiva, Dewey coloca que a compreensão da funcionalidade social permitem as crianças aprenderem os mais variados hábitos e valores, dependendo do ambiente em que se encontram.
                           Pautado nestas colocações, tem-se a brincadeiras como função para a criança, criar condições para o seu desenvolvimento integral (social, cognitivo, emocional, e psicomotor), partindo de objetos concretos, situações imaginárias e interações sociais, estabelecendo relações com o mundo e construindo conhecimento sobre ele e sobre si mesma. Substancialmente, o brincar e a brincadeira são ações da criança que acontecem através do jogo ou uso do brinquedo, mas também ocorrem no formato oral, corpóreo ou na utilização da imaginação.
                           Infere-se das disposições acima, que a ludicidade está presente na vida da criança seja na fase involuntária e/ou na sua fase voluntária, pois segundo Huizinga, ela significa “ilusão, simulação”,  Vygotsky explica que “A essência do brinquedo é a criação de uma nova relação entre o campo do significado e o campo da percepção visual – ou seja, entre situações do pensamento e situações reais”. Embasado nesta teia histórica de contribuições que na contemporaneidade, o brincar é juridicamente garantido pela Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 que estabelece em seu artigo 24 “o direito ao repouso e ao lazer”, como também pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), em seu artigo 16, que estabelece o direito a “brincar, praticar esportes e divertir-se”. Sabe-se que muitas crianças tem sua infância roubada por obrigações domésticas ou de trabalho em prol do sustento da família, onde é inexistente o divertisse ou a prática de esportes.
                           Esse discurso relativo ao valor da brincadeira como garantia de um direito vem sendo debatido na atualidade, tendo em vista inúmeros estudos apontarem a negação e diminuição do brincar infantil, ocasionado pelos mais diversos motivos. Friedmann, desde 1998 apontou em seus estudos que cada vez menos as crianças da atualidade brincam alguns fatores responsáveis por esta mudança são: o processo de industrialização produtos, o avanço tecnológico a concepção de infância atual; a globalização; a institucionalização das crianças em escolas e principalmente a utilização de brinquedos e jogos como instrumentos educativos para “treinar” crianças para a vida adulta.
                            Hoje, muitas crianças não dispõem de tempo inteligente para descobrir seus limites, espaços e para conhecerem o sabor da liberdade, pois o que mais se presencia no cotidiano infantil na atualidade, são crianças assujeitadas e não sujeitos. Infelizmente, os centros urbanos, dispõem de espaços insuficientes para o brincar, praças, parques, ruas são substituídos por shopping, sem mencionar a violência e outros atrativos da era moderna, que  sufocam e submetem as crianças a uma rotina violada por um mundo adulto artificializado, com a manipulação publicidade da televisão na sociedade do consumo. Assim, na conjuntura social da tecnocultura vivenciada pelas crianças onde a vida é regida de parafernálias tecnológicas, o brincar passou de uma vivência real para uma virtual, com remodelagem de antigos brinquedos e com a inserção de aparelhos que simulam ambientes multiusuais da internet, isso faz com que cada vez mais a criança fique isolada, longe da sociabilidade que as brincadeiras propiciam.
                            Diante disso, é gritante a necessidade de reformular e organizar o real sentido do brincar no âmbito físico/cognitivo. Essa consideração sobre o brincar infantil como direito expressa o reconhecimento de liberdade onde o brincar assume uma forma livre e imprevisível, de atividade elaborada, estruturante e regulamentada por aqueles que brincam, e anula a possibilidade da exploração do trabalho infantil, que ocorrem em muitos lares onde a situação financeira é precária. O governo federal a fim de amenizar a miséria e garantir o acesso à escolarização e consequentemente ao laser e a brincadeira, criou muitos programas assistencialistas para as famílias na linha da miséria no Brasil. Apesar de tal empenho é preciso transformar a promoção do direito à brincadeira em uma luta política, pois não é admissível o desrespeito ao direito ao brincar, que corroí a liberdade para o exercício livre de aprendizagem subjetiva, através de práticas utilitaristas e autoritárias que anulam sua essência, por tal motivo, é relevante organizar vários momentos da rotina familiar e escolar que privilegie a ludicidade.
                             Nesse sentido, vários são os olhares a partir dos quais se analisa a importância do brincar para a criança e que orientam a prática docente Vygotsky explica que: “... a criança em idade pré-escolar envolve-se num mundo ilusório e imaginário onde os desejos não realizáveis podem ser realizados, e esse mundo é o que chamamos de brinquedo”.
                           Nesse pressuposto, o brinquedo ganha um referencial ao criar durante a brincadeira a Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP) que consiste na distância entre o nível de desenvolvimento real e o nível de desenvolvimento potencial, isto é, a distância entre aquilo que a criança consegue fazer sozinha e aquilo que ela consegue fazer com o auxílio de adultos ou companheiros mais habilidosos para a atividade, nessa ótica jamais se brinca sem aprender. Por isso, atualmente a brinquedoteca vem sendo palco de estudos que buscam oferecer possibilidades de ações, ou seja, opções para brincar de forma livre, individual e coletiva, sendo assim, designa um espaço preparado para estimular a criança.
                            A Brinquedoteca é construída com um objetivo claro e com uma finalidade específica, brincar de acordo com o seu interesse, sua potencialidade e sua expressão lúdica. Deste modo, a Brinquedoteca incentiva a autonomia e desenvolve a capacidade crítica, promove o trabalho em equipe, a socialização, o desenvolvimento infantil, a comunicação, a criatividade, a imaginação e o desenvolvimento de atividades lúdicas. Em entrevista com alunos do 4º ano dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, da rede particular de Educação, ao questioná-los sobre o que é uma brinquedoteca, foram enfáticos ao descrevê-lo como lugar onde se brinca e que tem brinquedos e livros. Quando perguntadas como deveria ser uma brinquedoteca, logo disseram ser um ambiente grande, na cor branca, com brinquedos diversos: ursinhos, bonecas, carros, jogo da memória, massinha, quebra-cabeça, etc. Para instigar mais sobre o tema, foram questionadas se a escola que estudam possui brinquedoteca e como são realizadas as atividades nela, a resposta expressa a utilidade da brinquedoteca, com atividade no momento do recreio sob a supervisão da professora.
                            Assim compreende-se que para valorização efetiva da brincadeira dentro do ambiente escolar, mas precisamente na brinquedoteca, é necessária uma ampla formação prática e teórica, com técnicas de animação lúdica, de jogos, brinquedos e brincadeiras, aos profissionais das instituições escolares, porque somente sua presença na escola não garante que de fato cumpra sua finalidade. Em suma, o brincar é um comportamento e não deve ser entendido apenas como uma resposta a um estímulo, mas como uma relação estabelecida com um contexto social, dentro de um sistema cultural, pois brincando a criança nutre seu interior, aprender a viver socialmente, respeitando regras, cumprindo normas, ou seja, interagindo de modo organizado. 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

                            Diante do exposto, a concepção de infância com destaque no papel do brincar sofreu modificações significativas ao longo da historicidade infantil. No contexto social em vigor vê-se a crescente ocupação das crianças controladas por adultos, onde sistemas simbólicos são relativamente padronizados, assim a dinâmica da heterogeneidade reluta por um traço cultural de aprendizagem eminente: a ludicidade. O ECA traz em seu texto o direito de brincar em relação ao não trabalho infantil. Esse ponto é interessante, visto que não bastar apenas garantir o direito de brincar é preciso garantir espaços destinados para que isso aconteça para que a criança usufrua de sua liberdade, em termos de agilidade, de faz-de-conta e de imaginação.
                           A fim de garantir os direitos de brincar e se desenvolver plenamente por meio das mesmas é necessário dispor de instrumentos que valorizem as experiências infantis com a ludicidade, dentre elas podemos citar o resgate das brincadeiras de ruas, hoje tão pouco vivenciadas. Na escola, o jogo não pode apenas servir como meios de trabalhar conteúdos e habilidades, ele deve esta presente de forma livre, nesse ínterim concentra-se o objetivo principal da brinquedoteca: proporcionar atividades lúdicas em um espaço para brincadeiras não dirigidas, espontâneas. Quando a escola modela efetivamente essas ações exercita o direito de escolha das crianças, o que resulta disso é o reconhecimento da infância que abarca o processo de descoberta de si e dos outros concedendo ao brincar e aos jogos uma condição indispensável para que ela usufrua de sua liberdade, em termos de agilidade, de faz-de-conta e de imaginação.
                         Conclui-se assim, que a brincadeira esta presente em todo processo da existência humana, não sendo exclusividade infantil, porém é exatamente neste período que a brincadeira age como propulsora de liberdade, prazer e aprendizagem, mesmo que nem sempre essa compreensão esteve presente na sua historicidade juntamente com o respeito as suas peculiaridades.


REFERÊNCIAS

ANICETO. Remisson. Brincadeira é coisa séria. Disponivel em: http://remisson.com.br/2013/02/05/brincadeira-e-coisa-seria/     Acesso em 03. Out. 2013.

CAMARGO. Dilan.  O direito de brincar. Disponível em: http://www.recantodasletras.com.br/artigos/1599610     Acesso em 03. Out. 2013.

MARTINS, Alissandro. O brincar infantil. Disponível em: http://www.ebah.com.br/content/ABAAAAeQUAH/brincar-infantil Acesso em 03. Out. 2013.

ROSA, Fabiane Vieira da; Kravchychyn, Helena; Vieira, Mauro Luis.  Brinquedoteca: a valorização do lúdico no cotidiano infantil da pré-escola.

SAMENTO, Manuel Jacinto. As Culturas da infância nas encruzilhadas da 2ª modernidade.

O Papel das brincadeiras no desenvolvimento das crianças. Pedagogia ao Pé da Letra. Disponível em: http://arteeducacaoemovimento.blogspot.com.br/2013/06/o-papel-das-brincadeiras-no.html#.Uk1EytK-obI       Acesso em 03. Out. 2013.

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